Álvaro Cunhal, o líder histórico dos comunistas portugueses, morreu ontem de madrugada, após uma longa doença. Tinha 91 anos e sete décadas de percurso político - incluindo o cargo de secretário-geral do PCP, que desempenhou entre 1961 e 1992..Grande reorganizador do partido, no início da década de 40, Cunhal moldou-o de acordo com a sua vontade férrea, transformando-o na principal força de resistência à ditadura salazarista. Pagou com isso um elevado preço pessoal esteve detido durante cerca de 11 anos, entre 1949 e 1960 - oito dos quais confinado numa cela solitária no forte de Peniche. Esta dura experiência prisional viria a servir-lhe, muitos anos depois, de base factual para alguns dos livros de ficção que escreveu sob o pseudónimo de Manuel Tiago. Também na prisão, deu largas à sua veia de desenhador que tornara pública ainda muito jovem. Foi um jeito que lhe ficou através dos anos: nas reuniões do Comité Central do PCP, após o 25 de Abril, manteve o hábito de desenhar enquanto ouvia os seus interlocutores. Desenhava sobretudo ceifeiras ou meninos de rua..pró-moscovo. Cunhal foi igualmente uma figura de referência do movimento comunista internacional. Nas décadas fulcrais da guerra fria, e ultrapassado um "desvio de direita" na direcção do partido ocorrido enquanto esteve preso, pôs o PCP em clara sintonia com o "partido irmão" da União Soviética, onde chegou a exilar-se, nos anos 60, após uma espectacular fuga de Peniche. Em Agosto de 1968, foi o primeiro dirigente comunista a aplaudir a invasão da Checoslováquia pelos tanques do Pacto de Varsóvia, colocando-se também abertamente ao lado de Moscovo no conflito sino-soviético. Nos anos 70, demarcou-se dos camaradas espanhóis, italianos e franceses, defensores da linha "eurocomunista", que preconizava uma progressiva autonomia estratégica face à URSS. Mesmo depois da queda do muro de Berlim, manteve-se fiel ao modelo soviético, chegando a apoiar o abortado golpe contra Mikhail Gorbatchov, em Agosto de 1991, que visava pôr fim à perestroika. Este passo em falso gerou enorme controvérsia no PCP, obrigando o partido a um penoso exercício de autocrítica..sem pasta. Cinco dias depois da Revolução dos Cravos, a 30 de Abril de 1974, Cunhal regressou do longo exílio, assumindo-se desde logo como uma das personalidades dominantes no Portugal democrático. A sua primeira alocução aos portugueses decorreu sobre um veículo blindado, numa clara recriação do regresso de Lenine à Rússia em 1917, após a queda do czar..As bandeiras vermelhas com a foice e o martelo expostas em comícios e manifestações tornaram-se uma das imagens mais fortes dessa época. Cunhal ingressou como ministro sem pasta logo no I Governo Provisório, com Palma Carlos como primeiro-ministro, e manteve-se nos três executivos seguintes, liderados por Vasco Gonçalves. Mas era nas ruas e no aparelho sindical que o PCP exercia então de facto o seu poder, aliado a uma facção do Movimento das Forças Armadas - facção que viria, no entanto, a revelar-se minoritária. ."Viverá bem pouco quem não vir o socialismo em Portugal", chegou a proclamar o secretário-geral comunista em Maio de 1975. À jornalista italiana Oriana Fallaci, Cunhal garantia entretanto que jamais haveria democracia parlamentar no País. Nesse ano, Portugal radicalizou-se como nunca e esteve à beira da guerra civil. Mas os prognósticos de Cunhal não se materializaram a viragem ocorreu na noite de 25 para 26 de Novembro, com o triunfo da corrente moderada do MFA contra a facção pró-comunista..sucessão. O PCP aderiu desde então ao jogo parlamentar. Mas Cunhal, eleito deputado em diversas eleições, acabou invariavelmente por suspender o mandato. A passagem de testemunho só aconteceria em 1992, aos 79 anos Carlos Carvalhas sucedeu-lhe no cargo. Mas o líder histórico dos comunistas portugueses manteve uma influência decisiva no partido quase até ao fim: a sua acção foi decisiva para desarticular os elementos moderados que em 1998, data em que foi aprovado o documento "Novo Impulso", chegaram a ter maioria nos organismos executivos..Cunhal desdobrou-se em entrevistas e declarações públicas contra a "social-democratização" do PCP, acabando por virar o congresso de 2000 contra a corrente renovadora que queria mudar o partido por dentro. Isto gerou uma sangria de quadros dirigentes sem precedentes na história recente do PCP. Já no final da década de 80 e no início dos anos 90, a política inflexível de Cunhal gerara duas grandes vagas de deserções. O líder histórico dos comunistas encolheu os ombros, chamando "folhas secas" aos dissidentes..Nos últimos anos, com graves problemas de visão, Cunhal deixou de frequentar a sede da Soeiro Pereira Gomes, seu local de trabalho durante um quarto de século. Mas continuava a par das notícias de Portugal e do mundo. E integrou até ao fim o Comité Central. Aos raros camaradas que ainda o visitavam, garantia que não se arrependia de nada do que fez..luto nacional. O corpo de Álvaro Cunhal estará a partir das 16 horas de hoje em câmara ardente no centro de trabalho do PCP no antigo Hotel Vitória, na Avenida da Liberdade, em Lisboa. O funeral decorre às 16 horas de amanhã, para o cemitério do Alto de São João, onde o líder histórico dos comunistas vai ser cremado. Por decisão do Governo, quarta-feira será dia de luto nacional..Ontem à tarde havia um ambiente de natural consternação na sede nacional dos comunistas. A direcção do PCP instalou no rés-do-chão um livro de condolências que não tardou a registar reacções emocionadas. "Ensinaste-me o sentido da palavra liberdade", escreveu um militante. "O futuro dar-te-á razão", assinalou outro. "Conhecer-te mudou a minha vida", referia um dos signatários. "Tu foste o exemplo e o guia para muitos de nós", lembrava outro camarada. Também o ex-ministro socialista António Coimbra Martins se deslocou à sede do PCP, lembrando no livro de condolências "a coerência sem falha" e a "vida tenaz" de Cunhal..Com o secretário-geral, Jerónimo de Sousa, ausente em visita partidária ao estrangeiro, o Secretariado do PCP emitiu um comunicado de homenagem ao antigo líder "A melhor homenagem que podemos prestar-lhe é prosseguir a luta que travou até aos últimos dias de vida, sempre com confiança no futuro, pelos interesses e direitos dos trabalhadores." .No Alentejo profundo. À hora de almoço, em Baleizão, as ruas estavam desertas. Mas o volume dos televisores fazia perceber que a aldeia mais célebre de Beja estava muito longe de ser "fantasma". Ao fundo da rua Catarina Eufémia, um ciclista aproximava-se lentamente. Era alguém carregado de rugas que passou a manhã no campo, mas que já sabia da amarga notícia. "Um dia tinha que ser. Mas nunca estamos preparados." .Carlos Janeiro reagia de forma lacónica, mas muito emocionada à morte do "camarada Álvaro". Conhecia-o bem, sobretudo pelas "saudosas romagens" à campa de Catarina Eufémia. Do alto da bicicleta, este trabalhador rural, já bem acima dos 70 anos, puxou do lenço para limpar o suor, mas não conteve uma lágrima quando recordou como há cerca de 15 anos "o Alentejo estava em crise e com fome e ele veio cá dizer umas coisas ao pessoal. Foi o único que se lembrou dos pobres", assegurou em declarações ao DN..A aldeia retribuiu-lhe no ano seguinte, com a realização de uma excursão a Lisboa para estar ao seu lado numa das célebres descidas da Avenida da Liberdade. "Ele conheceu-nos logo. Veio ter connosco. Foi uma emoção muito grande ter ali o maior gigante da revolução", recordou Janeiro, admitindo não ser muito dado à política. "Mas não é preciso ser-se ferrenho do PCP para se admirar um homem daqueles, que sempre nos defendeu.".Bem mais emocionada estava Vitória Grilo. De partida para o trabalho, em Beja, esta mulher acabava de assistir aos noticiários televisivos. "Deram imagens lindas. Isto é que era um homem. Merecia ter tido mais oportunidades de endireitar este país. Portugal devia prestar-lhe a devida homenagem", reclamou, ainda desfeita em lágrimas, enquanto voltava a casa para buscar um lenço preto, que colocou na frontaria do carro..Aos 43 anos, Vitória Grilo afirma-se "comunista de corpo inteiro", não militante, reconhecendo que o partido "ficou mais pobre", correndo sérios riscos de perder influência nos tempos mais próximos. "Por aqui ainda somos muitos a defender a causa, mas era Álvaro Cunhal que continuava a alimentar a nossa força. A partir de hoje, não sei como será.".Para quem duvida, Vitória dava os eternos exemplos das romagens à campa de Catarina Eufémia. "Quando vinha o Álvaro havia centenas de pessoas. Quando vinha o Carvalhas não eram mais que duas ou três dezenas." Esta moradora de Baleizão garantiu que amanhã vai estar em Lisboa na despedida ao seu "ídolo"..Na janela de uma das casas à saída da vila, a bandeira do PCP surgia a meia haste. Não estava ninguém lá dentro, porque, segundo o vizinho, trata-se de um amigo próximo de Cunhal que seguiu viagem para a capital mesmo antes de saber onde iria ficar o corpo..Em São Manços, uma das freguesias de Évora onde a CDU ainda regista domínio, a morte do líder histórico do PCP também dava o mote a todas as conversas. Num dos cafés da terra não era difícil aferir da consternação que invadia os clientes, mesmo dos que se afirmavam de "outra cor". ."O homem era um cérebro e foi dos que lutou pela liberdade", comentava Isidoro Fernandes, um assumido socialista, para quem, "como toda a gente, Cunhal também tinha os seus defeitos". Uma frase prontamente contestada por Adérito Paixão, militante do PCP, já de idade avançada, a quem a voz trémula ainda permite garantir que "ninguém fez mais pela democracia e pelos pobres em Portugal do que este homem"..Adérito Paixão, 83 anos, falou com garra do "camarada" que partiu e recordou com saudade os seus comícios na Festa do Avante!, enquanto os restantes membros se calavam para ouvir.."Era uma emoção até às lágrimas na defesa dos trabalhadores. Deu tudo ao país e a história há-de ser justa para com ele", refere, admitindo que "nunca mais ninguém" vai ser capaz de empolgar uma plateia como Álvaro Cunhal o fazia nos tempos da FIL, do Jamor ou em Loures. . * Com Roberto Dores